Afantasia
- nataliajscosta
- 25 de jan. de 2025
- 7 min de leitura

Definição
Dentro do contexto em que cada pessoa é única (veja o post Unicidade), não podemos deixar de considerar a experiência de vida associada a biologia de cada um, bem como os processos neurológicos são moldados que contribui para unicidade do ser. Eu gostaria de discutir aqui um tema referente a uma condição neurológica que possuo: a afantasia congênita.
A afantasia congênita, também conhecida como imaginação cega, é definida como a incapacidade inata de visualizar voluntariamente uma imagem mental. O termo “afantasia congênita” foi introduzido pelo Prof. Dr. Adam Zeman, da Escola de Medicina da Universidade de Exeter em uma publicação científica em 2015 (ZEMAN, A.; DEWAR, M. SALA, S. D. 2015).
A intensidade com que a afantasia se manisfesta pode ser avaliada em uma escala de vivacidade, por meio do questionário de vivacidade de imagens visuais (VVIQ) (ZEMAN, A. 2024). Uma pessoa que não consegue gerar nehuma imagem mental é um caso de afantasia extrema. Estima-se que cerca de 1-3% da população apresenta afantasia extrema (ZEMAN, A. 2024; KEOGH, R.; PEARSON, J.; ZEMAN, A. 2021).
A afantasia é considerada uma variação normal da experiência humana, e não um distúrbio que requeira tratamento. No entanto, ter afantasia significa experienciar o mundo de forma diferente da maioria das pessoas, o que pode trazer consequências nos processos cognitivos.
Eu tenho afantasia extrema: não crio voluntariamente imagens mentais. Também não consigo evocar voluntariamente outras recordações sensoriais, como tons sonoros por exemplo. No entanto eu sonho, e quando revivo experiências sensoriais, consigo associá-las a uma experiência passada. Eu também possuo uma voz interior bem-falante.
Minha história
Eu me recordo muito bem, de forma descritiva pela minha voz interior, do momento em que eu descobri que tinha afantasia. Foi no ano de 2016. Eu estava no carro com meu marido e resolvi conversar sobre meditação. Algumas meditações pedem para imaginarmos um cenário tranquilo, e, para mim, aquilo nunca fez sentido. Afinal, o cenário visual na minha mente era uma tela preta, e, durante a meditação, eu tentava mentalmente descrever o cenário para mim mesma. Ou seja, a voz interior não parava de falar.
Quando eu falei para meu marido que eu sempre via uma tela preta, ele se surpreendeu e me perguntou se eu não via uma imagem dentro da minha cabeça. Naquele momento, fiquei perplexa: Como assim uma imagem dentro da minha cabeça? Você vê alguma coisa? Ele responde: Sim! E aí o enchi de perguntas: Você vê uma tela, como televisão? Você tem controle do que vê? A imagem que você vê pode ter movimento? Enfim, naquele dia tomei uma consciência de algo diferente em mim.
Quando cheguei em casa, fui procurar algo na internet que explicasse minha condição. Encontrei pouca coisa, mas consegui achar a referência do Prof. Dr. Adam Zeman com o termo afantasia. Mandei um e-mail para ele falando da minha situação e me dispus a participar de sua pesquisa, na qual respondi a um formulário. O Prof. Dr. Zeman foi muito atencioso. Com o passar dos anos, o tema ganhou notoriedade, e mais informações e pesquisas começaram a surgir. As pessoas com afantasia começaram a tomar consciência de suas condições, e comunidades foram criadas para troca de experiências.
Achei interessante que eu tomei consciência da minha condição sem ler nada a respeito antes e busquei o Prof. Dr. Adam Zeman justamente em um ano importante de sua pesquisa. O universo conspira.
Após tomar consciência da minha condição, comecei a querer falar sobre isso com outras pessoas, amigos e familiares principalmente. As pessoas me olhavam com curiosidade e falavam: Ah isso não é nada, não encuca com isso. Não era questão de encucar. Eu queria explicar como era meu mundo e entender como era o mundo das pessoas capazes de visualizar imagens mentais. Queria entender o que nos diferenciava em termos de experiência do mundo. Quando eu imagino que poderia ter uma imagem dentro da minha cabeça, seja com os olhos aberto ou fechados, fico apavorada. Esse assunto, para mim, parece mágica.
A única pessoa que realmente me deu atenção e me ajudou a me entender melhor foi meu marido. Percebi que para as pessoas ao meu redor, esse assunto não os intrigava tanto, eu era uma pessoa normal para elas, e ponto. Nesse processo de conscientização sobre a afantasia, tive um ganho enorme no meu autoconhecimento. Trago aqui alguns comportamentos meus que acredito serem afetados, de alguma forma, pela falta de visualização de imagens mentais:
Dificuldade de lembrar de rostos: Tenho dificuldade de reconhecer rostos, principalmente se eu tive pouco contato com a pessoa. É comum eu passar por pessoas conhecidas na rua e não cumprimentar. Eu preciso de um tempo para parar, olhar bem para a pessoa e reconhecê-la.
Foco sentimental no presente: O processo de perder um ente querido é terrível. Perdi minha avó, quando estava finalizando um estágio na França. Meu luto se resumiu a curar os buracos deixados pela ausência dela no meu dia a dia. Dividi meu quarto com ela até meus 26 anos, e ela era muito presente na minha vida. Mas não consigo evocar mentalmente a imagem dela, sorrindo para mim. Sem essa imagem, o sentimento de saudade é mais brando. Quando olho uma foto dela, a intensidade da saudade aumenta pelo menos cinco vezes. Quando penso que a maioria das pessoas consegue trazer essa imagem à mente, fico perplexa: Como elas conseguem evitar trazer a imagem de um ente querido à cabeça? Como lidam com os sentimentos ao evocar essa imagem em um momento aleatório? E quando alguém sofre um trauma, como controlar para que essa imagem não perturbe? Enquanto uns acham triste não poder trazer a imagem na cabeça de entes queridos, para mim não ter essa capacidade é confortante, pois me ajuda no autocontrole emocional.
Assim como todos, passei por coisas boas e ruins no passado, mas não trago memórias vividas que reacendem sentimentos antigos. Ou seja, meus sentimentos costumam ser mais intenso no presente, em relação ao que acontece no momento. Qualquer sentimento relacionado ao passado ou ansiedade pelo futuro existe sim, mas não com a mesma intensidade do presente. Isso me ajuda a me conectar com novas pessoas e me adaptar em ambientes diferentes.
Pensamento analítico: Acredito que a afantasia tem um papel importante na minha desenvoltura na área de exatas. Tenho facilidade com pensamento analítico para resolução de problemas e pensamento crítico. Meu aprendizado se dá por uma linha de raciocínio lógico. O que eu escuto, leio, escrevo, visualizo ou presencio só se torna aprendizado quando faz sentido dentro de uma lógica de raciocínio. Quando faz sentido, aprendo extremamente rápido. Se não, preciso me dedicar mais e buscar a informação de diferentes fontes até criar uma nova linha de raciocínio.
Com o conhecimento sobre a afantasia, também surgiram informações sobre pessoas com hiperfantasia, que possuem uma incrível capacidade de criar imagens mentais vívidas e recorrentes. Há também pessoas que não possuem voz interior, com uma imaginação silenciosa. São várias formas diferentes de experienciar a vida! Acho muito importante termos consciência dessas condições mentais, pois, ao entendê-las, buscamos compreender nosso próprio funcionamento e nos tornamos mais empáticos com os outros.
Um exemplo para refletir
Vou compartilhar com vocês um exemplo pessoal que ilustra a diferença de atitude entre dois líderes em relação à minha afantasia, para que possam entender como a empatia de um líder pode impactar o desenvolvimento do liderado. Quando alguém precisa me ensinar algo que envolve imaginação, facilita muito se a pessoa criar um fluxograma, desenhar ou mostrar algo visual. Eu não aprendo gravando uma imagem mental, mas visualizar a imagem no momento do aprendizado me ajuda a formar a linha de raciocínio lógico necessário para reter a informação na minha mente descritiva.
Expliquei isso para duas lideranças diferentes que tentavam me ensinar de formas que exigiam uma imagem mental. Vou descrever os diálogos que tive, baseando-me nas memórias dessas conversas. As palavras podem não ser exatamente essas, mas consigo trazer a essência da situação pela minha percepção.
Líder 1
Essa liderança me passou uma informação de forma que exigia imaginação, o que dificultou minha compreensão de detalhes importantes. Durante a discussão sobre o assunto, parecia que eu não tinha gravado os detalhes por falta de atenção. Na verdade, eu estava me esforçando muito para aprender. Resolvi me abrir sobre minha condição:
Eu: Minha mente funciona de forma diferente. Tenho dificuldade de entender o processo ou a ideia do projeto apenas com palavras, porque não consigo criar imagens mentais.
Líder 1: O que posso fazer para te ajudar?
Eu: Será que você poderia desenhar ou esquematizar no papel enquanto fala comigo?Líder 1: Claro!
A partir desse dia, toda vez que essa liderança queria me passar um projeto novo ou trazer informações detalhadas, ela escrevia no caderno enquanto falava comigo e me permitia tirar uma cópia para que eu pudesse revisitar as informações quando necessário. Não tivemos mais problemas de comunicação.
Essa ação não demandava muito mais tempo dela. Enquanto falava, ela esquematizava no papel, o que me ajudava muito. Eu costumava até brincar no ambiente de trabalho: “Sabe aquela pergunta de zero tolerância: Entendeu ou quer que eu desenhe? Então, eu quero que desenhe.” Isso sempre rendia algumas risadas.
Líder 2
Com essa liderança, percebi que estava tendo problemas de comunicação. Ela explicava algo que exigia uma imagem mental, e, mesmo me esforçando, eu acabava entendendo de forma diferente do que era dito. Achei que os problemas poderiam estar relacionados à minha afantasia e tentei explicar minha condição para melhorar a comunicação:
Eu: Tenho uma condição em que minha mente funciona de forma diferente...
Antes que eu pudesse terminar de me explicar e pedir ajuda para ajustar a forma como a informação era passada, a liderança me interrompeu:
Líder 2: Todo mundo é diferente. Ninguém é igual a ninguém.
Eu: Sim, isso é verdade. Você tem razão.
A liderança não pediu mais detalhes sobre minha condição e mudou de assunto. Pelo tom da resposta, preferi não insistir. Assim, quando essa liderança tentava me ensinar ou solicitar algo que exigisse a criação de uma imagem mental, eu revisava minhas anotações e confirmava as informações com outras pessoas que tinham recebido a mesma orientação.
A frase “O que posso fazer para te ajudar?” foi uma das mais acolhedoras que recebi de uma liderança, e transmite, nas entrelinhas: Entendo que você tem uma dificuldade e estou aqui para te ajudar a superá-la. Como já discuti no post sobre Aprender e Ensinar, criar conexões com as pessoas pode melhorar muito a comunicação.
E você? Tem experiência para nos contar?
Este post trouxe algum insight novo para você?
Referências
ZEMAN, A.; DEWAR, M. SALA, S. D. Lives without imagery–Congenital aphantasia. Cortex, v. 73, p. 378-380. 2015.
ZEMAN, A. Aphantasia and hyperphantasia: exploring imagery vividness extremes. Trends in Cognitive Sciences, v. 28, n. 5, p. 467-480. 2024.
KEOGH, R.; PEARSON, J.; ZEMAN, A. Aphantasia: The science of visual imagery extremes. In: BARTON, J. J. S.; LEFF, A. Handbook of Clinical Neurology. Elsevier, 2021. v. 178, cap. 15, p. 277-296.

Pessoal, acabei de descobrir que algumas pessoas tem voz interior com som. A minha voz é bem falante, mas não tem som. São apenas pensamentos.😊