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Empatia

  • nataliajscosta
  • 14 de fev. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 19 de jun. de 2025


Uma composição que fiz de um quadro que recebi da minha amiga de infância Andrea!
Uma composição que fiz de um quadro que recebi da minha amiga de infância Andrea!

Definição


O conceito de empatia é um tema bem complexo e profundo quando discutido nos campos da psicologia, filosofia e sociologia. Sugiro a leitura de Sampaio, Camino e Roazzi (2009). Neste texto, vamos nos ater a definição de mais fácil compreensão, em que a empatia é entendida como a capacidade de se colocar no lugar do outro e que pode ser de forma emocional e cognitiva.


O poder da empatia


A empatia é uma habilidade poderosa na liderança, na atuação clínica e na vida em sociedade. Quando a palavra “poder” está associada a algo, significa que é preciso sabedoria para usá-la na dose certa. Com a empatia não vai ser diferente.

Colocar-se no lugar do outro emocionalmente e cognitivamente de forma equilibrada é considerado algo positivo, o que eu apoio e procuro promover. No entanto, pode haver desequilíbrio entre a empatia emocional e cognitiva.

O excesso de empatia emocional, pode inibir a sinceridade por medo de magoar alguém, além de causar um desgaste emocional, o que não é bom.

Quando a empatia é cognitiva apenas, pode ser possível prever ações e manipular situações, o que, a meu ver, pode ser muito prejudicial e eu não apoio. Eu considero a manipulação sempre algo prejudicial, pois parte de alguém que se coloca numa posição egocêntrica.

Já a falta de ambas empatias gera indiferença, egoísmo e agressão.

É importante ressaltar que nestes dois últimos casos, o problema pode estar relacionado a alguns transtornos de personalidade, ou condição neurológica e seria recomendável um acompanhamento psicológico.

  • Um líder que usa a empatia cognitiva na forma de manipulação não faz uma boa gestão e é facilmente desmascarado pela equipe.

  • Um líder excessivamente empático, pratica a empatia ruinosa (Scott, K.; 2021) e não faz uma boa gestão, pois não se comunica de forma clara para realmente contribuir com o desenvolvimento da equipe.

  • Um líder que tem pouca empatia pode levar a comportamentos que contribuem para um ambiente tóxico e, em casos mais extremos, até assédio moral.

  • Um líder com empatia na dose certa é um bom líder assertivo.


Empatia e compaixão


Empatia e compaixão são conceitos distintos. Vamos usar aqui a definição de compaixão como a vontade de aliviar o sofrimento do outro - a compaixão leva à ação.

A empatia pode existir sem compaixão, pois alguém pode se colocar no lugar do outro, mas não ajudar. A compaixão pode existir sem empatia, pois alguém pode querer ajudar sem se colocar no lugar do outro. A compaixão sem empatia pode acontecer por fatores como ética, crenças e valores.

Vejo a junção de empatia na dose certa com compaixão como a corrente do bem, capaz de unir as pessoas para ajudar o próximo e transformar o mundo em um lugar melhor. A empatia na dose certa, que é assertiva, aliada à com compaixão, ensina a pescar, ao invés de simplesmente doar o peixe. Vejo uma liderança humanizada como uma liderança empática assertiva e compassiva.


Como desenvolver empatia: Uma reflexão pessoal


No tema da liderança, a empatia é apresentada como uma habilidade essencial que o líder do futuro precisa desenvolver. Isso nos diz indiretamente que, no mundo atual, há uma carência de líderes empáticos. Mas como desenvolver empatia?

Confesso para você que pensei nisso por muito tempo. Nenhuma proposta de curso ou treinamento me pareceu eficaz. Se procurarmos rapidamente na internet como desenvolver empatia, as sugestões são vagas, por exemplo:

  1. Coloque-se no lugar do outro - Ué? Se colocar no lugar do outro já não é o resultado de ter a empatia?

  2. Entenda o ponto de vista de uma pessoa - Repito o primeiro ponto

  3. Pratique escuta ativa - Escutar e entender muito bem uma pessoa não garante a conexão emocional que te faz realmente se colocar no lugar do outro.

  4. Ajude alguém - Trabalhos voluntários podem realmente ser um catalisador para empatia, mas ainda assim, tem alguma conexão que precisa ser estimulada para que o trabalho voluntário nos impacte emocionalmente e não seja apenas uma compaixão sem empatia.

  5. Autoconhecimento - Vejo o autoconhecimento mais como uma ferramenta para identificar nossas próprias emoções quando temos empatia.

  6. Peça feedback - Essa dica é ótima porque descobrimos como o outro nos percebe, mas isso contribui apenas para a empatia cognitiva.


Nenhuma dessas sugestões me convenceu. A parte do desenvolvimento da empatia emocional para gerar o equilíbrio entre a emoção e razão me pareceu negligenciada.

Esse era o primeiro texto que eu queria ter escrito para o blog, mas sempre empacava na questão: Como desenvolver a empatia?

Recentemente eu passei por uma situação que me trouxe um insight.

Eu estava andando na rua e passei próximo a um ponto de ônibus onde vi uma senhora, aparentemente em situação de rua, sentada no chão como se tivesse caído. Ela estava discutindo com o marido que a respondia de forma agressiva. Olhei para a cena, e assim que comecei a me comover com a situação eu bloqueei a emoção e continuei andando.

Enquanto eu passava, o marido da senhora virou as costas e foi embora. Neste momento, uma moça que estava do ponto do ônibus se aproximou para ajudá-la a levantar. Eu parei e observei. Eu estava mais próxima da situação e por que eu não fui ajudá-la? A resposta imediata que me veio foi: “Não iria me meter no meio da situação porque eu poderia ser agredida também.” Foi um instinto de autopreservação. Eu intencionalmente cortei minha emoção referente a situação e consequentemente bloqueei a compaixão. Me senti mal com isso. Me senti mal pela senhora, me senti mal porque eu não tive a compaixão para ajudá-la.

A empatia é uma habilidade que a gente pode desenvolver, mas também pode perder.

Eu costumava ser uma pessoa com muita empatia emocional, o que também não era bom. Mas o que aconteceu comigo?

Eu comecei a refletir em cima dessa situação e fui me recordando do passado. Eu era facilmente convencida a ajudar as pessoas em situação de rua e já cheguei a me expor em situações de risco. E com o tempo isso diminuiu muito. Eu passei algumas situações que me fizeram desacreditar em boas intenções. Vou lhes contar apenas duas delas para exemplificar:


  1. Fui abordada por um rapaz na rua, que me contou, de forma convincente, que tinha vindo do interior com um filho doente para fazer tratamento no hospital público de São Paulo. Ele tinha sido assaltado e estava sem dinheiro. O seu filho estava sendo atendido no hospital, precisava de fralda e, naquele momento ele não tinha condição de comprar. Na conversa me disse que a fralda precisava ser de uma marca específica, porque a criança tinha alergia. Eu tenho um gatilho quando é problema com criança. Sempre quero tentar ajudar. Eu comprei a fralda e ainda lencinhos umedecidos. Na mesma semana apareceu uma reportagem na televisão, na mesma esquina que fui abordada, que um rapaz ficava contando história de um filho doente e pedia fraldas de marca mais cara para revender em sua loja depois.

  2. Um adolescente em situação de rua me pediu dinheiro para comer. Eu entrei na padaria e fiz a festa. Comprei doce, salgado e suco, e entreguei tudo para o menino, que saiu me xingando porque não dei o dinheiro.


Em situações como essas, onde somos manipulados e enganados sentimentalmente, podamos a empatia para nos proteger. E não adianta dizer que o bom empata entende tão bem o outro que sabe quando está sendo enganado. O empata se emociona com filmes, novelas (as novelas coreanas são ótimas para deixar a empatia à flor da pele). A empatia emocional tem que existir quando você se coloca no lugar do outro. No entanto temos que lembrar que a empatia se manifesta a partir da perspectiva que o outro nos apresenta. Pense nisso!

Também podemos podar nossa empatia emocional por priorizar automaticamente a razão, sem equilibrá-la com a emoção. Por exemplo, o desespero para entregar um resultado no trabalho, ou resolver um problema pode bloquear nossas emoções. Se você é um líder que já recebeu um feedback apontando pouca empatia, reflita: quantas vezes percebeu que um membro da equipe não estava bem, mas, sem hesitar, bloqueou seu sentimento e focou apenas na cobrança do resultado?

Se você sente que tem pouca empatia e deseja desenvolvê-la, minha sugestão é a seguinte:


Encontre seus padrões, quebre-os e se deixe sentir!


Reflita sobre as experiências que te levaram a perder a fé na humanidade, ou a priorizar automaticamente a razão. Da próxima vez que aparecer uma situação semelhante, perceba o momento em que você buscará bloquear sua emoção, talvez dizendo a si mesmo “Isso não é problema meu!” ou “Deixa quieto e foco no trabalho!”. Quebre esse padrão. Dê espaço para que as pessoas contem suas histórias, expressem seus sentimentos. Permita que sua emoção floresça. Isso é empatia. Deixe para tomar a decisão de ser compassivo ou não depois de sentir. Não tome a decisão enquanto sente, mas se você não se permitiu sentir, sua decisão pode não ser e melhor por não levar todos os aspectos da situação.

Se a pessoa não foi verdadeira com você, o que importa é que você se permitiu sentir. Se você dedicou cinco minutos para se conectar com seu membro da equipe, saiba que esses cinco minutos não atrasarão a entrega do trabalho. Agora, talvez o trabalho atrase muito mais como consequência da falta de empatia com sua equipe.


Meu recado é que é preciso um equilíbrio entre razão e emoção. A empatia cognitiva apenas não gera aquela conexão real com as pessoas. Eu ando de olho na minha empatia emocional para não a podar demais.


Me diga, como está a sua?


Referência:


SAMPAIO, L. R.; CAMINO, C. P. S.; ROAZZI, A. Revisão de Aspectos Conceituais, Teóricos e Metodológicos da Empatia. Psicologia Ciência e Profissão, 2009, 29 (2), 212-227.


SCOTT, K. Empatia Assertiva. Tradução: Cristina Yamagami. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Alta Books, 2021.

 
 
 

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