Parte I) Desenvolvendo soft skills no ensino em exatas
- nataliajscosta
- 26 de jun. de 2025
- 7 min de leitura
Quando a educação em exatas abraça as emoções pode ser um caminho para o futuro das profissões

Todo educador, facilitador de aprendizagem, é um líder. Por isso, trazer temas relacionados à educação dentro do nosso time de liderança faz todo sentido e pode trazer a discussão de novos insights para líderes organizacionais.
Neste texto, quero compartilhar com vocês um dos meus propósitos, Ikigai ou razão de viver, como preferirem: ser facilitadora no desenvolvimento de competências comportamentais (soft skills) em adultos, para promover um mundo mais colaborativo. As competências comportamentais envolvem habilidades socioemocionais (intrapessoais e interpessoais) e cognitivas (como criatividade e tomada de decisão, por exemplo). Descobri esse propósito quando comecei a estudar sobre liderança e, da mesma forma que esse conhecimento trouxe uma reconexão interior, ele também me deixou bem preocupada.
Sou formada em Bacharelado em Química com Atribuição Tecnológica. Já há um certo viés de que pessoas formadas em Exatas têm mais dificuldade em desenvolver soft skills. E, embora eu estude muito sobre o assunto e minhas experiências de vida corroborem para minhas habilidades para exercer esse propósito, não tenho uma formação que me permita iniciar uma carreira em áreas correlatas.
No entanto, o universo costuma conspirar e, de um jeito ou de outro, as oportunidades aparecem. Quando entrei na educação, em um ambiente que valoriza o desenvolvimento tanto de competências técnicas quanto comportamentais, encontrei o caminho para colocar em prática meu propósito.
Não é fácil trazer para aulas de exatas atividades que estimulem o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. Digo isso porque acredito que o desenvolvimento dessas habilidades vai além de simplesmente pedir aos alunos que façam um trabalho em grupo ou uma atividade com metodologia ativa. A habilidade cognitiva é mais fácil de trabalhar, pois conseguimos explorar o pensamento crítico e analítico, por exemplo, por meio de experimentos que estimulem o raciocínio científico.
Quando falamos de habilidades socioemocionais, precisamos falar de sentimentos e emoções. Existe uma cultura muito forte, principalmente no ambiente de trabalho, que estimula a separação entre razão e emoção. A emoção é muitas vezes vista como a vilã que faz perder o controle, brigar, tomar decisões erradas... Inúmeras dicas de gestão dizem: “deixe a emoção de lado e trabalhe com a razão”. No entanto, vejo esse discurso como um retrocesso à aprendizagem socioemocional. É quando você bloqueia a emoção e dá ouvidos apenas à razão que perde empatia, deixa de se conhecer, de saber o que te agrada ou não, e se afasta dos seus valores.
O livro Como conhecer bem uma pessoa: A arte de ser visto e ver profundamente os outros, do autor David Brooks (2024), encheu meu coração, pois me identifiquei muito com a mensagem e recomendo a leitura. O autor traz a importância de considerar aspectos emocionais além da razão.
A aprendizagem socioemocional, principalmente no âmbito intrapessoal, está relacionada a compreender as emoções e sentimentos, e não a bloqueá-los. É conseguir identificar o que se sente e refletir sobre o porquê e como esse sentimento pode afetar uma decisão ou comportamento. A razão entra para ajudar a compreender e lidar com o sentimento, e não para fazer com que ele desapareça. Por isso, a aprendizagem socioemocional é algo profundo, e seu desenvolvimento depende da necessidade e vontade de cada indivíduo. Não é (ou não deveria ser) apenas um cumprimento de demanda de mercado.
Justamente por isso, atuar como facilitador da aprendizagem socioemocional envolve criar situações em que as pessoas possam sentir e refletir, para que, posteriormente, sigam conscientes no caminho que desejarem desenvolver. Um professor não ensina habilidade socioemocional. Ele facilita o desenvolvimento. Por isso, é preciso que ele tenha um olhar “socioemocional”, além do técnico, para direcionar e apoiar os alunos de acordo com as necessidades individuais e de grupo que surgirem.
Desenvolver habilidades socioemocionais é difícil, pois exige tomadas de consciência que não se atingem facilmente em uma unidade curricular de soft skills ou em uma simples atividade em grupo.
Há ainda um agravante que sinto pelas minhas experiências: habilidades socioemocionais precisam ser trabalhadas constantemente ao longo da vida, pois são suscetíveis ao fading, ou seja, podem enfraquecer sem prática. Infelizmente, o mundo em que vivemos colabora muito para que as pessoas desaprendam essas habilidades, seja pela maior interação com a tecnologia, seja pela própria realidade competitiva organizacional.
Defendo a ideia de que, na educação, a preocupação com esse desenvolvimento deve ocorrer durante todo o curso e em todas as unidades curriculares, não sendo tratada como uma atividade à parte.
Na área de Exatas, cheia de contas matemáticas, fica bem mais complexo agregar temas que envolvem habilidades socioemocionais dentro do conteúdo. Estou tentando, com criatividade, trazer para minhas aulas de exatas atividades que acredito agregarem valor ao desenvolvimento socioemocional, principalmente por meio de reflexões, sem perder espaço do conteúdo técnico e do desenvolvimento das habilidades cognitivas. Algumas foram um sucesso, outras nem tanto. Quero compartilhar com vocês minha percepção sobre as atividades que fiz até o momento.
Temas de trabalho que envolvam consciência social e tomada de decisão
Propus o seguinte tema para um trabalho de análise de dados: “Avaliar propostas governamentais de soluções para problemas sociais ou ambientais relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil.” Os alunos tinham que coletar dados sobre o problema e as medidas do governo para enfrentá-lo, discutir a efetividade das ações com base nos dados e, por fim, propor novas abordagens de solução utilizando um dinâmica que aplica a técnica dos seis chapéus do pensamento. A técnica dos seis chapéus do pensamento, desenvolvida por Edward De Bono, é uma técnica qualitativa que fornece um meio para os grupos organizarem o pensamento auxiliando na tomada de decisão. Essa técnica é utilizada na educação para desenvolvimento de pensamento crítico (KIVUNJA, C., 2015). Eu considero muito interessante esta técnica, especialmente por incluir o chapéu da emoção.
Durante a dinâmica, os alunos debateram de forma rica e produtiva, ampliando a visão sobre os problemas. Identifiquei um aprimoramento da consciência social e do processo de tomada de decisão.
Espaço para compartilharem experiências
No ensino superior, especialmente nas turmas noturnas, muitos alunos já atuam na área. Percebi que alguns deles trabalhavam com temas relacionados às aulas e abri espaço para que compartilhassem suas trajetórias.
Você já ouviu falar que um aluno aprende melhor com outro aluno? Nunca vi uma verdade tão verdadeira. Nunca tive tanta atenção da turma como no dia em que eles apresentaram. Quem apresenta desenvolve habilidades de comunicação, e quem assiste desenvolve empatia ao tomar consciência das diferentes trajetórias e experiências dos colegas.
Aprendi muito também. Cada pessoa tem uma vivência única. Não importa a idade, sempre temos algo a aprender uns com os outros.
Atividades interdisciplinares
Outra forma de desenvolver empatia é propor atividades interdisciplinares em que os alunos “experimentem” outra profissão, sem sair do contexto da disciplina. Isso contribui para o desenvolvimento da criatividade, amplia o repertório e estimula a adaptabilidade.
Sou fã de atividades interdisciplinares. Melhor ainda quando conseguimos envolver professores e/ou alunos de outras áreas. Realizei duas atividades com turmas de Engenharia:
1) Apresentação de dança em equipe para trabalhar conceitos de vetores e Leis de Newton.
2) Produção de um post carrossel educativo abordando os processos editoriais e as regras de sequenciamento de produção.
Atividades que desafiam tanto, como a dança, não devem ser obrigatórias. Devemos explicar os objetivos de aprendizagem e deixar que os alunos escolham o quanto querem sair da zona de conforto. Quem não se sente à vontade para dançar pode colaborar na criação da coreografia. Fiquei surpresa com o engajamento. Os alunos se conhecem melhor por meio da descoberta das habilidades de cada um, e alguns se esforçam de fato para sair da zona de conforto pelo interesse real em se desafiar.
Atividades baseadas em analogias
Queria muito abordar o tema da autogestão e tempo de tela com os alunos. Encontrei no curso de Planejamento e Controle de Produção a analogia ideal: planejar e controlar o tempo de tela. Trouxe um diálogo sobre saúde e segurança no uso do celular, introduzi os conceitos de coping e da blue zone of happiness, e pedi que, a partir da análise de tempo de tela no Excel, identificassem o que era desperdício. Depois, deveriam planejar como transformar esse tempo em atividades que promovam coping positivo, com base na blue zone. A atividade foi inspirada no livro “Aprendizagem Socioemocional com metodologias ativas: um guia para educadores”, de Carolina C. Cavalcanti.
A única dificuldade foi o momento: apliquei essa aula no fim do semestre e não consegui avaliar bem o aproveitamento. Mas a temática encaixou e pretendo repeti-la no início do próximo semestre que esse curso ocorrer.
Atividades em grupo ou em pares em sala de aula
Além dos projetos finais em grupo (ABP), promovi muitas atividades práticas em grupo ou dupla para desenvolver habilidades interpessoais e reforçar conteúdos técnicos com aplicação prática. Usei metodologias como PBL, estudo de caso, gamificação e exercícios aplicados.
No entanto observei um problema nessas atividades: se não há uma conexão com assuntos que realmente despertem curiosidade e desafiem os alunos, ou não há uma gamificação que promova um grupo vencedor, os alunos não interagem com qualidade para realização da atividade. Nem se a atividade tiver uma cobrança de nota. Ou seja, essas atividades em grupo ou em dupla na sala de aula, tenderam na grande maioria dos casos (não todos) pouca interação, tendo sempre um que absorve a responsabilidade do trabalho, e outros que desviam completamente a atenção da atividade.
Visão geral
Em todas essas abordagens, acredito que quatro momentos são fundamentais:
1) Explicar os objetivos de aprendizagem da atividade proposta;
2) Monitorar atentamente a aprendizagem técnica e socioemocional dos alunos;
3) Guiar a reflexão por meio de exercícios e perguntas reflexivas, como tarefas de casa ou discutidos em aula;
4) Realizar uma reflexão final, em que o professor explica as habilidades exploradas em cada etapa.
Para mim, o número de atividades com enfoque socioemocional ainda não é suficiente. Não consegui explorar com profundidade as habilidades intrapessoais para promover o autoconhecimento. E ainda falta encontrar um caminho eficaz para acompanhar o desenvolvimento das habilidades de trabalho em equipe. O verdadeiro trabalho em equipe exige um nível de colaboração que, fora do ambiente organizacional, é um grande desafio.
Espero conseguir trazer novos insights no próximo semestre.
Se você já viveu algo parecido como educador ou como líder, me conta? Quais experiências te ensinaram a integrar razão e emoção no aprendizado?
Referências:
BROOKS, D. Como conhecer bem uma pessoa: A arte de ser visto e ver profundamente os outros. Tradução: Cynthia Costa. São Paulo: Universo dos livros, 2024.
KIVUNJA, C. Using De Bono’s Six Thinking Hats Model to Teach Critical Thinking and Problem Solving Skills Essential for Success in the 21st Century Economy. Creative Education, 6, 2015, 380-391. doi: 10.4236/ce.2015.63037.
CAVALCANTI, C. C. Aprendizagem Socioemocional com metodologias ativas: um guia para educadores. São Paulo: SaraivaUni, 2023.

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