top of page

Conhecimento e progresso

  • nataliajscosta
  • 25 de fev. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 15 de abr. de 2025


A perfeição como inimiga do progresso


Progresso significa avançar, então, para ser inimigo do progresso, é preciso estagná-lo ou retrocedê-lo. Eu não sou perfeccionista, porque, se fosse, acho que jamais teria criado esse blog. Mas me incomoda não fazer o melhor que consigo dentro de um determinado contexto. Por isso, quando ouço a frase “a perfeição é inimiga do progresso”, ela me incomoda. Na minha percepção essa frase pode ser facilmente interpretada de maneira equivocada e ser usada como desculpa para um trabalho feito de qualquer jeito.

Outro ponto é que, para mim, a perfeição existe. A perfeição existe na natureza, na criação de uma nova vida... A perfeição existe no ser imperfeito. Não vejo, por exemplo, a natureza sendo inimiga do progresso.

Quando trazemos a busca pela perfeição como característica do indivíduo, de fato, o perfeccionismo é um padrão de comportamento que pode ser muito prejudicial para o desenvolvimento da criatividade, do crescimento pessoal e do senso crítico. Como a perfeição depende de um padrão pré-estabelecido, o perfeccionista tem dificuldade de questionar, refletir e possui pouca tolerância ao erro. Assim, o perfeccionismo pode desacelerar o progresso. No entanto, na minha opinião, acho que o progresso deveria se preocupar mais com a falta de conhecimento do que com o perfeccionismo.


O conhecimento teórico


Já ouvi muitas pessoas dizerem que “na realidade a prática não tem nada a ver com a teoria”, ou que “vale mais apena aprender na prática do que estudar”, desmerecendo o conhecimento teórico e a necessidade de uma formação. Lembram do post Competências? Para desenvolver uma competência você adquire conhecimentos, os pratica pra transformá-los em habilidades e, por fim, utiliza o conjunto de habilidades por meio da atitude. O conhecimento é a base da competência.

A prática é essencial para fixar o conhecimento teórico e torná-lo útil. Sem um bom embasamento teórico, há o risco de se tornar um executor de tarefas, sem espaço para reflexão, questionamento e inovação.

Outra questão que acho importante levantar é que só conseguimos criticar, questionar, inovar ou aprimorar uma teoria se antes a conhecemos e a aplicamos muito bem.

Enfim, a teoria não se relaciona com a prática, porque muitas pessoas, em muitos lugares, executam tarefas sem saber de fato o que estão fazendo - ou apenas acham que sabe. O mundo está precisando muito mais de pessoas com conhecimento do que pessoas automatizadas. Ter uma graduação, uma especialização ou um curso na área que você deseja atuar é um diferencial importante.


Melhoria contínua


Na produção de bens e serviços é muito comum ouvir sobre melhoria contínua, seja pela filosofia Kaizen, seja pela Gestão de Qualidade Total, ou pela metodologia Six Sigma. Engraçado que a filosofia de melhoria contínua é nada mais nada menos do que a busca pela perfeição: zero defeitos, zero falhas, zero desperdício... Meio contraditório uma empresa que busca a melhoria contínua dizer para priorizar o progresso à perfeição não é mesmo?

Durante minha trajetória profissional eu sempre observei os processos de como as coisas funcionavam e sempre chegava à conclusão de que muitos problemas existiam pela falta de aplicar a teoria, falta de pensamento lógico, falta de pensamento crítico e a deficiência de comunicação. Quando eu comecei a dar aula na universidade, iniciei com temas relacionados a processos produtivos e controle de qualidade. Senti a necessidade de me aprofundar nesses assuntos. Foi então que me deparei como uma grande quantidade de informações que, até então, eu achava que eram apenas percepções minhas - mas que, desde a década de 1950, profissionais já discutiam e transformavam em filosofias e modelos a seguir.

Em muitos casos, a teoria já está bem fundamentada na prática. Então, por que não é utilizada? Qual o gap na transmissão de conhecimento? Por que as pessoas não praticam a teoria? São questões para refletirmos.

 

Momento reflexão


Até aqui expressei minha opinião sobre perfeição e progresso, sobre o desmerecimento da teoria e sobre melhoria contínua. Para mim é muito claro como esses conceitos se relacionam e como a falta de conhecimento pode causar estragos. Mas sempre que eu tentei conversar sobre isso e explicar, sinto dificuldade em me fazer entender. Somente com palavras, parece que tudo vira uma salada de ideias.

Outro ponto é que muitas pessoas confundem humildade com obediência cega (tema para outro post). Assim, é comum que aqueles que defendem a importância do conhecimento sejam julgados como soberbos.

Dos meus 14 aos 18 anos eu ganhava uns trocados bordando ponto em cruz e, ao lembrar disso, tive um insight. Acho que encontrei um jeito interessante de explicar por que o conhecimento é importante. Analise a tabela abaixo:


Vamos refletir sobre cada situação do conhecimento:


Sabe o que faz: A teoria é aplicada na prática. No ponto em cruz, existe o chamado avesso perfeito. O avesso perfeito é usado quando não há forro na peça, então o lado direito e o avesso ficam expostos visualmente. Com o avesso perfeito há a minimização dos recursos utilizados. Ter uma graduação, por exemplo, garante que você tenha tido contato com o conhecimento teórico necessário e o tenha praticado em projetos na universidade. Dessa forma, se tem a consciência de que o conhecimento existe, fica mais fácil e menos demorado aplicá-lo no trabalho. Muitas vezes é necessário relembrar a teoria por meio de livros e outras fontes de informação confiáveis.  Nunca é vergonhoso relembrar conceitos básicos, pelo contrário, essa prática deveria ser incentivada. Revisitar fontes de conhecimento é essencial para aplicar a teoria na prática. Lembrando que ao contrário da ideia do avesso perfeito, a teoria pode não ser perfeita, mas a conhecendo e a aplicando sempre podemos aprimorá-la.


Sabe o que faz com prazo curto: Quando se sabe o que faz e o prazo é curto, é possível identificar quais etapas podem ser ajustadas para agilizar o processo sem comprometer o resultado. Entretanto, encurtar o prazo quase sempre leva ao aumento do consumo de recursos.


Acha que sabe o que faz: Quando se aprende apenas na prática, utilizando superficialmente a teoria ou sem atualizá-la, cria-se a ilusão de domínio do conhecimento. Afinal praticamos sempre todo dia. A famosa frase “Sempre foi feito assim e deu certo”, ou “Não se mexe em time que está ganhando” são comuns em ambientes que estagnam neste ponto.

Muitas empresas permanecem nessa condição, e quando um profissional com conhecimento bem estabelecido e atualizado chega à organização ele pode ser desvalorizado e forçado a seguir padrões desatualizados e distantes da teoria. Por isso, ouvimos tanto a frase “Na prática, a teoria é outra”.

Nessa situação, há uma tendência de se gastar mais tempo e recursos do que quando se tem um domínio mais aprofundado do processo.  Por isso uma das habilidades que o mercado de trabalho tem focado é a flexibilidade. A flexibilidade alinhada ao conhecimento permite que a organização saia do estágio “acha que sabe o que faz” e evolua para “sabe o que faz com prazo curto”.


Não sabe o que faz, mas precisa entregar: Esse é caos vivido por muitas pessoas, e tenho percebido isso pela conversa com profissionais de diversas áreas. Percebo que muitas pessoas gostariam de ter mais tempo para estudar a teoria, mas acabam seguindo o fluxo para atender prazos e metas exigentes.

Nesse cenário, os prazos raramente são cumpridos e, ninguém calcula os recursos extras que precisaram ser utilizados. Afinal, não há um padrão teórico para comparação. Como seria o mesmo processo se estivesse alinhado a teoria? Muitas vezes essa métrica nem existe. O máximo que se faz é comparar com outros processos de sucesso que aplicaram a teoria corretamente.

Esse caos, no entanto, é a base de surgimento de muitos negócios. Com o tempo, as empresas passam por melhorias contínuas, mas frequentemente estagnam no estágio de “acha que sabe o que faz”.


Perceba que, em todas essas situações, o progresso ocorre, mesmo que por caminhos tortuosos. Nenhuma delas resulta em estagnação ou retrocesso. O que muda é a velocidade e o consumo de recursos necessários para o progresso. Observem que o conhecimento tem o poder de acelerar o progresso e reduzir o desperdício de insumos.

Outro ponto relevante: observe o fluxo do “não sabe o que faz, mas precisa entregar” para o “sabe o que faz”. É possível mudar de uma situação para outra, gradativamente, por meio da melhoria contínua. Ou seja, a filosofia de melhoria contínua nada mais é que a prática se alinhando à teoria.

É claro que os processos em empresas são mais complexos do que bordar um coração em ponto em cruz. No entanto, a lógica da importância do conhecimento permanece a mesma.


A liderança é um processo


Não poderia deixar de refletir sobre liderança, pois a lógica do raciocínio é a mesma. Imagine que você seja um líder (caso já não seja). Agora, pense na linha de bordado como sua equipe. Se o líder não sabe o que faz, ou acha que sabe, ele demanda excessivamente de sua equipe, resultando em jornadas exaustivas, estresse, falta de direcionamento e decisões equivocadas. Muitas vezes, investe-se em insumos materiais desnecessários, na tentativa de compensar as falhas na gestão. O produto é entregue, mas às custas da saúde da equipe e sem otimização real do tempo. Há, inclusive, a ilusão de que o prazo foi otimizado, mas será que esse prazo já foi validado por uma liderança que realmente sabe o que faz?

Por outro lado, se o líder sabe o que faz, ele preserva sua equipe e entrega no prazo. Caso seja necessário reduzir o tempo de execução, talvez seja necessária uma hora extra ocasional, novas contratações ou à modernização de equipamentos. Nesse caso o ganho no tempo é real!

Para um líder saber o que está fazendo é essencial adquirir conhecimento. Há um vasto campo de estudos e práticas voltadas ao desenvolvimento da liderança. Se você ocupa um cargo de liderança precisa estudar sobre:

  • gestão de pessoas

  • gerenciamento de tempo

  • gestão de projeto

  • autoconhecimento

  • trabalho de equipe

  • desenvolvimento de habilidades socioemocionais

  • criatividade

  • E tudo mais que for necessário para sua área de atuação.


Se você assumiu um cargo de liderança sem uma preparação prévia, vale muito a pena buscar conhecimento adicional para fortalecer suas habilidades. Para realmente saber o que faz e praticar a teoria, será necessário buscar conhecimento ativamente. Caso sua empresa não te ofereça um curso completo, há inúmeros livros e materiais disponíveis sobre o assunto. (veja algumas dicas de livro na página “Leitura” deste blog).

Ser um líder que sabe o que faz não é fácil. Exige estudo, prática, responsabilidade e inteligência emocional. Portanto um líder precisa também se cuidar!

Se você tem um bom líder que sabe o que faz, diga a ele o quão importante ele é para você e para a equipe. Um bom líder também precisa ser valorizado.


O outro mundo


Até aqui os temas foram discutidos sob uma perspectiva lógica.

Se observarmos os mesmos bordados, cada processo traz uma visão única e diferente, se transformando em uma arte: “Com coração se faz arte”. “Com arte se faz coração”.

Isso nos lembra que sempre há diferentes formas de enxergar uma mesma situação. O conhecimento e a prática podem ser estruturados, mas a forma como os interpretamos e aplicamos pode variar muito. Sempre há perspectivas diferentes sobre um mesmo tema.

Convido você a compartilhar a sua.


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

4 comentários


Adilo
18 de mar. de 2025

Excelente post. Um assunto complexo/polêmico tratado com simplicidade. Isto é um dom! Trabalhei 20 anos na indústria e, tanto nelas como nos livros, raramente ouvimos/lemos o termo filosofia. Fiquei feliz em ler aqui, você citar Kaizen como filosofia (porque de fato o é). Sem ser redundante com seu texto, pois concordo com tudo o que escreveu, faço apenas uma provocação aos leitores: "já perceberam que aqueles que falam que, aprender na prática é melhor do que estudar são, na maioria os que não estudaram?". Respeito a opinião de todos sobre isso, mas é difícil e injusto avaliarem algo que não vivenciaram. Na filosofia "Gemba" os orientais descrevem que: para uma avaliação justa, você precisa ir no local real, para ver, compreender…

Curtir
nataliajscosta
19 de mar. de 2025
Respondendo a

Adilo, muito obrigada pela contribuição com sua opinião e experiência, trazendo informações super relevantes para discussão da temática, nos levando a refletir. Fico muito feliz!😊

Curtir

Convidado:
26 de fev. de 2025

Olá muita luz e paz! Li o seu último Post, com certeza concordo que deveríamos ter a Teoria aliada às nossas atividades no dia a dia, porém mesmo tendo milhares de Instituições de Ensino para muitos ainda é algo inacessível e certamente isto não é desculpa e acredito que aí é um ponto onde as empresas, os empregadores deveriam agir, e visualizo que nos últimos anos as empresas vem atuando na formação e organização de seus colaboradores.

O que gostaria de apresentar é que prática e teoria devem andar juntas, veja o exemplo da invenção da lâmpada, que as tentativas não podem ser jogadas fora e sim aproveitadas para um entendimento e aprimorar o produto final.

Com certeza tudo isto…

Curtir
nataliajscosta
27 de fev. de 2025
Respondendo a

Excelente colocação! Você disse tudo, a vaidade tem que ser deixada de lado. Todos juntos em direção ao objetivo, aprendendo e ensinando.

E seu exemplo da invenção da lâmpada foi ótimo. Quando pensamos em inovação, muitas teorias já fundamentadas vieram de experimentos práticos, de situações inesperadas, de ideias novas em cima de teorias existentes... A teoria e a prática tem que coexistir. Uma sem a outra não funciona.

A pergunta que ainda me faço é porque em muitos casos as teorias que já são fundamentadas não são aplicadas? Porque em alguns casos é necessário repassar pelo processo de descobrir de novo a teoria? Acho que você trouxe um ponto importantíssimo: as empresas atuarem na formação dos colaboradores para garantir qu…

Curtir
bottom of page