Quando a excelência técnica silencia a empatia: os impactos da falta de preparo para liderar na universidade
- nataliajscosta
- 31 de jul. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 4 de ago. de 2025
Sem formação em liderança, a pós-graduação adoece alunos, sobrecarrega professores e enfraquece a ciência.

Muitas pesquisas se desenvolvem no âmbito da liderança organizacional. Treinamento e desenvolvimento de liderança é um tema forte e importante nas organizações, pois já se entende que a força que as move são as pessoas.
No entanto, a questão que poucos falam e levantam, embora haja pesquisa científica sobre isso, é que a universidade também é uma organização. Especialmente as universidades públicas, que têm um forte domínio em pesquisas, dependem da atuação de professores líderes, capazes de gerir projetos científicos e um grupo de pesquisa, além do ato de lecionar.
Alguém já ouviu falar em conscientização sobre liderança para professores universitários? E para alunos de pós-graduação, cujos próximos passos da carreira envolvem posições de liderança informal ou formal, seja nas empresas ou na área acadêmica?
Esse é um assunto que poucos mencionam, não porque não queiram falar, mas porque a maioria não faz ideia do que seja de fato e, consequentemente, não faz ideia da importância. Acredito que talvez os cursos de engenharia e psicologia tenham algum avanço nesse pensamento dentro das universidades.
O sistema de contratação de professores em universidades públicas já funciona de um jeito que exclui o tema de liderança da sua lista de importância. Os professores são contratados por conhecimento técnico, projeto alinhado à instituição, publicações e uma prova didática. Em nenhum concurso existe uma preocupação sobre como aquela pessoa trabalha com pessoas e quais são suas habilidades em gestão. Em muitos casos, os professores nunca tiveram uma experiência fora do meio acadêmico, o que poderia ampliar um pouco a perspectiva estratégica das organizações. E depois de contratados, são poucos que passam por alguma orientação sobre o tema.
Acontece que, depois de se tornar professor em uma universidade pública, uma de suas atribuições é orientar alunos para fazer pesquisa. Muitas vezes, principalmente nas áreas de exatas, você terá um laboratório com estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado trabalhando juntos, aprendendo e gerando conhecimento na forma de publicações e novas tecnologias. O professor será um líder de um time que, o caso da falta de conhecer o que significa de fato liderar, atua como líder direto na prática, passando por inúmeras tentativas e erros, até achar um jeito que acredita funcionar, mas que na verdade pode estar muito longe de ser o melhor.
Também há muito poucos professores líderes preocupados em desenvolver seus alunos com competências socioemocionais, além das técnicas. Afinal, o próprio professor não teve suporte para se desenvolver nesse sentido.
O resultado disso:
Alunos de pós-graduação com desgaste emocional, depressão e burnout
Alunos de pós-graduação pouco engajados
Falta de empatia
Alunos de pós-doutorado saindo da universidade com mentalidade de alunos e sem habilidades concretas de trabalho em equipe e liderança
Espaço para climas ruins dentro dos grupos de pesquisa, com falta de confiança e respeito entre os colegas, e bullying
Pouco aproveitamento dos projetos de extensão na graduação
Não há a formação de um pensamento colaborativo na instituição como um todo. A colaboração acaba sendo pequena e, algumas vezes, superficial entre alguns poucos grupos de pesquisa
Por fim, o próprio professor fica mais propenso a sofrer exaustão e burnout, pela falta de autoconhecimento
O tanto que a universidade perde por não trazer esse tema da liderança para a prática dos professores é suficiente para me deixar muitíssimo preocupada e ter coragem para trazer esse assunto para discussão.
Já li alguns posts em redes sociais que falam da pressão que os professores sofrem por publicação, para conseguir dinheiro para pesquisa, como se a forma com que os processos são no Brasil justificasse a liderança tóxica de alguns professores. Com certeza, a métrica da publicação pode ser um problema crônico, mas não justifica a falta de empatia de um professor pesquisador.
Em outros posts, alunos de pós-graduação relatam absurdos sofridos que levaram à depressão, burnout e, muitas vezes, até à desistência ou troca de orientação. Ou então, relatam um ambiente de trabalho hostil entre os colegas, em que muitos professores nem fazem ideia de como agir, se devem ou não agir, ou nem fazem ideia do que acontece.
O ambiente acadêmico público, em muitos aspectos, enfrenta desafios ainda maiores do que o corporativo, especialmente pela ausência de mecanismos de avaliação e desenvolvimento da liderança. Acredito que isso seja verdade pelos seguintes motivos:
Os alunos de pós-graduação ou pós-doutorado exclusivo não são contratados pelo regime CLT, portanto, não possuem direitos trabalhistas. Os contratos de bolsa falam de 40 horas semanais, mas isso não é monitorado. Da mesma forma que isso pode levar a horas excessivas de trabalho, resultando em burnout, também pode levar a horas a menos de trabalho, resultando em atraso no desenvolvimento da pesquisa e desgaste emocional no professor.
A hierarquia de necessidades de Maslow para pós-graduandos estaciona na fisiologia, porque segurança já não há. Como exigir motivação?
O próprio pós-graduando já faz pressão sobre si mesmo com relação à publicação, porque sabe que é importante para sua carreira, e ainda pode sofrer pressão do professor
A incerteza do futuro é muito grande, porque o mercado e os concursos não absorvem todos os doutores. Muitos deles abandonam sonhos e acabam fazendo coisas completamente diferentes para sobreviver, ou acabam fazendo pós-doutorado “eterno” no exterior. Muitos professores pesquisadores esquecem que passaram por isso e não demonstram empatia nenhuma por essa situação, que leva muitos à depressão. Para vocês terem noção de como esse problema é grave, eu tive a sorte de ter muito bons orientadores e, mesmo assim, não deixei de sentir desespero e angústia com relação ao que faria depois do pós-doutorado. Fico imaginando quem teve uma orientação ruim...
Em alguns contextos, o alto nível de exigência técnica e intelectual pode, sem intenção, fortalecer uma cultura individualista, que dificulta a colaboração e o diálogo empático
Atualmente, não há mecanismos formais de treinamento equitativo, avaliação ou responsabilização relacionados ao papel do professor como orientador e líder. Isso contribui para que práticas prejudiciais persistam sem correção
Infelizmente, ainda há quem enxergue temas como empatia, colaboração e liderança humanizada como algo secundário ou idealista demais. Essa visão, no entanto, ignora o potencial transformador dessas competências. Quantas pessoas não dizem que o ser humano é assim, que muita gente não dá para confiar, que pessoas não éticas existem e que esse é o mundo em que vivemos, e temos que aceitar e jogar o jogo?
Eu te pergunto, se é assim, por que a liderança nas organizações é um tema tão sério? Por que times de alta performance existem?
Porque a colaboração se aprende e tem força criativa, construtiva e inovadora.
Nós, seres humanos, somos aprendizes. Ninguém faz intriga, fofoca e sabota o trabalho do outro se esse comportamento não for estimulado. Pessoas podem aprender a ser colaborativas, a se comunicar melhor e de forma não violenta, a ter empatia.
Agora, na ciência, vivemos um momento em que muitos problemas chegaram ao mesmo tempo para serem resolvidos e exigem ações rápidas. A forma como os problemas ambientais evoluíram não deu espaço para nos prepararmos com antecedência. A transição energética e a sustentabilidade estão no foco e exigem soluções para ontem. A inteligência artificial tem avançado mais rápido do que conseguimos nos adaptar, e precisamos nos preparar rapidamente para tirar proveito dela a fim de ajudar a solucionar esses problemas.
Como vamos conseguir fazer isso se não instituirmos lideranças colaborativas e focadas em pessoas? Como teremos as melhores soluções se não soubermos trabalhar de uma forma melhor? Como teremos times de alunos motivados e de alta performance se os alunos estão tendo depressão e burnout, ou simplesmente estão desistindo de fazer pós-graduação?
A forma como o professor exerce sua liderança impacta diretamente na formação dos alunos, inclusive na maneira como eles vão se posicionar em futuras lideranças, seja na academia ou fora dela. As universidades têm potencial para transformar o mundo não só pelo conhecimento gerado, mas pelas pessoas que formam.
Quando falamos em liderança, já está subentendido “trabalhar com pessoas”, e como cada pessoa é única, é comum as pessoas terem a impressão de que só se aprende liderança na prática do trabalho, sem teoria, sem mentoria. Parte disso acontece porque liderança exige um peso muito grande das soft skills, e boa parte das soft skills se desenvolve na interação com outras pessoas em diversas situações, principalmente em tomada de decisão e negociação. No entanto, interagir com pessoas, só pela prática da liderança, também não garante que você irá realmente desenvolver as soft skills necessárias, porque, se fosse assim, não existiriam líderes tóxicos anos a fio em cargos de gestão. Esse aprendizado precisa ser suportado por conhecimento como por exemplo, conhecer sobre teoria sobre gestão de conflito e comunicação não violenta, promove o desenvolvimento consciente necessário para liderar.
Pela experiência que tive até agora, ainda não houve uma pessoa que conseguiu me convencer de que liderança se aprende só praticando, sem adquirir conhecimento teórico e mentoria. Até hoje, o que eu consegui aprender só praticando, ou então o que vi por exemplos de outros, seja na parte de liderança informal ou seja na parte técnica, é que a prática exclusiva, sem adquirir conhecimento, resulta em reinventar a roda. Sempre teve um livro que abri depois e encontrei ali o que levei tempo para aprender em tentativa e erro. Imagina o tempo que não teria sido salvo se eu tivesse buscado o conhecimento antes.
Assim, se você que está lendo este texto é um professor pesquisador universitário ou um aluno de pós-graduação ou pós-doutorado que não teve contato profundo ainda com esse tema, eu acredito que vale a pena procurar alguns artigos científicos sobre o liderança. A ciência da liderança é um nicho de pesquisa bem explorado e com evidências interessantes. Depois, naturalmente, a curiosidade se expande e você pode ampliar seu conhecimento através da experiência de outras pessoas por meio de livros e conversas. Neste site, na aba “Leitura”, você encontrará a indicação de alguns livros que li até agora e que considerei terem me trazido um conhecimento importante, ou validaram o que aprendi na prática.
Se queremos uma ciência inovadora, ética e relevante para os desafios globais, precisamos urgentemente formar líderes melhores dentro das universidades. E isso começa pelo reconhecimento de que liderança se aprende com prática, teoria, mentoria e troca. A universidade que forma líderes técnicos precisa também formar líderes humanizados.


Comentários