A importância da comunicação natural para uma liderança humanizada
- nataliajscosta
- 22 de out. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 24 de jan.
Reflexões sobre como ser ouvido e respeitado sem precisar atuar.

Para mim, qualquer Soft Skill ou competência socioemocional tem que ser exercida de forma natural. O que isso significa? Significa que a pessoa passou por um processo de aprendizagem imersivo em que adquiriu conhecimento, praticou em diversos contextos e quer, além de se sentir confortável, aplicá-la. Ou seja, a competência está em sintonia com quem ela é. Qualquer situação em que a pessoa precise passar o tempo todo se monitorando internamente, gerando desgaste emocional, tem algo que não está certo. Não é saudável.
A comunicação é uma soft skill em que naturalidade é essencial, e o uso de algumas técnicas de comunicação verbal e não verbal pode contribuir para a não naturalidade, como por exemplo:
Uso excessivo de “palavras certas” e frases ensaiadas
Pergunta estratégica constante
Reformulação
Excesso de elogios técnicos
Uso de linguagem positiva excessiva
Pausas dramáticas e apelo intencional ao emocional do público
Sorriso forçado e contato visual prolongado demais
Gestos calculados e repetitivos
Perfeição na postura corporal
Tom de voz sempre controlado
Imitação proposital da linguagem corporal do outro com intenção manipulativa
Quero deixar bem claro que não sou contra e nem desmereço o incentivo a algumas técnicas de comunicação e negociação para pessoas que têm dificuldade de se posicionar. Cada um encontra uma maneira. Embora, caso a pessoa tenha dificuldade de se expressar e posicionar por problemas relacionados a traumas ou neurodivergência, por exemplo, o melhor é ter um acompanhamento de um profissional da área de psicologia.
Na minha perspectiva, que talvez não seja comum para todos, eu procuro conhecer essas técnicas de comunicação para saber quando alguém as está aplicando em uma conversa comigo, porque, da mesma forma que essas técnicas podem ajudar muita gente competente que tem dificuldade a se expressar melhor, também ajudam pessoas que não têm ainda a competência necessária a se sobressair e levar adiante ideias que talvez não sejam as melhores.
Eu já tenho medo de manipulação. O meu eu interior gosta de refletir e raciocinar em cima de informações com calma. Ele se apavora em pensar que alguém pode interferir nesse raciocínio aplicando alguma técnica de persuasão. Por isso, em relação às mudanças que o mundo tem passado, eu não me preocupo apenas com a inteligência artificial, mas também com o avanço da neurociência e com o que as duas podem fazer juntas. Ambas podem trazer muita coisa boa para o mundo, mas se não houver ética e tomada de decisões responsáveis, acho bem preocupante.
Mas então, como fazer para se comunicar melhor de forma natural, sem uma técnica que diz a melhor palavra para usar, o melhor jeito de me expressar corporalmente para atingir um objetivo?
Vamos lá. Uma boa comunicação não depende só de quem comunica, mas também de quem recebe. Então acredito que todo mundo tem que trabalhar no desenvolvimento tanto da forma de passar quanto da forma de receber uma informação. Na sequência, dou algumas sugestões do que seria desenvolver a comunicação de forma mais natural. Algumas destas sugestões são conhecidas e trazidas em algumas outras técnicas de comunicação.
Você do lado de quem comunica
Cultivar o hábito da leitura: independentemente do tema, só o ato de ler te ajuda a ampliar o vocabulário e assimilar de forma natural estruturas de frases mais coesas e assertivas.
Clareza e comunicação não violenta: a leitura e a empatia te ajudam nisso. É importante encontrar diferentes formas mais simples de passar a mesma informação e adequar à compreensão de quem recebe a informação. Para isso, é preciso conhecer o contexto, a cultura e a área de atuação do público. Simplificar e adequar ajuda muito em uma comunicação mais clara. A empatia emocional e cognitiva de forma equilibrada, também promove naturalmente uma comunicação não violenta.
Procurar aprimorar a dicção e a projeção vocal. Um profissional da área vocal e de música pode te ajudar nisso. Esse é um dos pontos de melhoria que tenho a trabalhar e é importante para a saúde da voz.
Estar preparado. Por exemplo, se você vai trazer uma ideia em uma reunião, tem que ter confiança nela. Se você só acha que é uma boa ideia, então por que quer trazê-la? Vá fundo na curiosidade, procure informações que comprovem que sua ideia faz sentido e pode ser uma alternativa para um problema. Se você quer parecer confiante, tenha argumentos para isso. Para ser confiante, a gente precisa se convencer de que está realmente trazendo valor. Se você não tem confiança, mas apenas quer tentar ser visto para conseguir uma promoção, eu lhe estimulo a refletir sobre isso e antecipar o futuro. Vai chegar um momento em que você terá que demonstrar a competência que diz ter. Será que não é melhor adquirir de fato a competência antes?
Traga suas perguntas, aquelas que te levaram a chegar a uma conclusão, para a realidade de uma conversa. Quando as pessoas têm acesso a essas perguntas, elas também refletem sobre. Às vezes só uma pergunta bem-feita valida a informação que você quer passar, ou então a resposta pode trazer reflexões novas que te levam a compreender outras perspectivas. Isso é diferente de fazer perguntas estratégicas. Essa forma traz as pessoas para perto de suas reflexões, é mais como um refletir junto, por isso não significa que a melhor conclusão final será a sua.
Antes de falar, tenha certeza de que escutou atentamente o que os outros disseram. Se ficou alguma dúvida sobre o que alguém disse, peça por favor para repetir. A sua colocação tem que ser coerente com o contexto. Geralmente, se eu me distraí em uma conversa, por exemplo, evito dar opinião.
Utilize recursos visuais, caso você perceba que não está conseguindo se fazer entender. Isso já me ajudou muito. Tenha sempre um papel e uma caneta por perto.
Linguagem corporal: quando a gente está em paz consigo mesmo e com o mundo, o controle das expressões corporais é natural, porque ficamos em estado pleno. Eu tenho alguns momentos de paz e muitos outros não. Portanto, é comum eu expressar corporalmente alguma insatisfação, surpresa ou alegria. Eu acho isso uma reação normal. Lidar com a emoção, no sentido de não agir de forma precipitada, é uma coisa. Outra é controlar sua testa para não franzir quando escutou alguma coisa errada. Esse tipo de controle costuma ser algo forçado para muita gente e gera desgaste emocional. Para ser de forma natural, invista em autoconhecimento e meditação, mas vou adiantando que não é simples e leva tempo. Não tem fórmula mágica nem atalho.
Verbalize seus sentimentos quando perceber que isso ajudará o seu público a entender o porquê de você estar dizendo o que está dizendo. Não é para expor todos os seus sentimentos a todo momento, mas quando realmente fizer sentido para a mensagem que precisa passar. Isso pode ajudar muito também na compreensão de pessoas que têm dificuldade em interpretar expressões corporais e é bem diferente do ato de forçar um discurso apelando para a emoção do espectador.
Garanta que os conceitos utilizados na sua comunicação sejam compreendidos por todos. Já vi muita coisa saindo errada por compreensão equivocada ou falta de explicação de conceitos importantes, como no caso de muitos KPIs.
Você do lado de quem recebe a comunicação
Entenda seus vieses cognitivos. Todo mundo tem viés. Mas existem vieses explorados por algumas técnicas de comunicação que podem afetar como você recebe a informação. No caso da linguagem corporal, por exemplo, o corpo fala antes da verbalização. Mas muitos comportamentos observados podem não ter nada a ver com o que você percebeu. Você sabia que muitas pessoas do espectro autista têm dificuldade na expressão corporal? Então, antes de assumir qualquer julgamento pela forma como a pessoa se expressou corporalmente, procure perguntar, abrindo espaço para a pessoa se expressar por mais de uma forma e garantir a autenticidade da informação.
Muitas vezes a forma como nos posicionamos perante a pessoa a leva ao receio. Por exemplo, alguém que pede desculpas por incomodar realmente pensa que está incomodando. Em vez de a pessoa ter que se policiar para mudar o hábito de pedir desculpas para ser levada a sério, por que quem recebe a informação não se coloca em uma postura clara de abertura? Muitas vezes isso envolve perguntar: o que posso fazer para você se sentir mais à vontade em me abordar sem a necessidade de pedir desculpas? Dessa forma, você ajudará a pessoa a estar mais confiante. Por outro lado, existem momentos em que não queremos ou não podemos ser interrompidos. Nesses momentos, basta avisar que, durante aquele período, só em caso de emergência.
Escute ativamente. Muito da habilidade da escuta ativa ser exercida de forma natural vem da curiosidade. A curiosidade é uma habilidade que eu ainda não estudei muito, mas, como uma pessoa curiosa naturalmente, eu acho que a leitura diversificada, deixar um tempo interno reservado todos os dias em que você não está produzindo para o trabalho e a aceitação interna do seu monstro questionador (ver post “Fazer o que precisa ser feito: aceitar o erro como parte do caminho”) podem ser passos para se tornar uma pessoa mais curiosa.
Uma pessoa ser mais respeitada porque conhece técnicas de comunicação que a ajudam a se posicionar é muito estranho. Todo mundo deveria ser visto e respeitado. Como líder, a gente tem que criar espaço para todo mundo ser ouvido. Concordo que uma pessoa que não consegue ter uma comunicação clara e com argumentos em público dificilmente vai ocupar uma posição que exija isso. No entanto, isso não significa que ela não deva ser percebida. Muitas pessoas não querem cargo de liderança, mas querem se sentir parte de uma equipe saudável e ter sua contribuição reconhecida. Elas não deveriam precisar aprender nenhuma técnica para conseguir ser ouvidas e respeitadas. E, a partir do momento em que um líder dá abertura para a pessoa se expressar e ela se percebe respeitada, naturalmente as habilidades dela de comunicação vão se aprimorando.
O que eu percebo é que, no ambiente de muitas organizações, quem domina práticas de comunicação que não são naturais é percebido por lideranças superiores e se sobressai. É como se as lideranças se comunicassem na linguagem delas. Isso pode, em alguns casos, gerar promoções equivocadas. No entanto, existe muita gente, muita gente mesmo, de níveis hierárquicos mais baixos que percebe a falta de naturalidade, e isso gera murmúrios, insatisfação e comentários sobre falsidade, impregnando dessa forma as camadas mais profundas da cultura organizacional, gerando raízes difíceis de mudar e levando a um clima muito menos colaborativo dentro da organização.
O que acham de mudarmos esses vieses criados pelas próprias práticas forçadas? Em vez de valorizarmos quem as domina e incentivarmos as pessoas a atuar para serem respeitadas, por que não prestamos mais atenção em como as pessoas são e ajudamos aqueles que querem a se comunicarem melhor de forma natural?
A influência de um líder humanizado não vem da manipulação. Ela vem da autenticidade.
Reflexões finais
O mais importante da comunicação é que ela seja transmitida de forma empática e o mais clara possível, evitando múltiplas interpretações. Isso a gente consegue fazer de forma natural. E fazer isso já não é nada fácil. Eu acreditava que sabia me comunicar bem, porque lidava com diversas áreas diferentes dentro da empresa, até iniciar minha carreira como professora e ter um público mais diverso ainda. Tenho que abusar da criatividade para passar a informação das mais variadas formas possíveis. Aprendi e estou aprendendo muito como professora, e não precisei usar nenhuma técnica para convencer ninguém de nada. Só o fato de me mostrar presente, interessada em contribuir para o aprendizado e ser verdadeira já está sendo um bom caminho para me fazer ser ouvida.
E na sua experiência, você já percebeu quando alguém estava usando uma técnica de comunicação mais para convencer do que para dialogar? Como reagiu?
E se valorizássemos mais a autenticidade do que a performance ensaiada, como seria o impacto na cultura das organizações?



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