O conflito das certezas
- nataliajscosta
- 23 de jan.
- 6 min de leitura
A confiança cega na própria memória é um obstáculo a ser superado na liderança

O assunto que trago neste texto é algo que me perturba a vida inteira: a certeza que as pessoas têm em suas memórias. Isso me perturba porque vi problemas relacionados a isso não só no trabalho, mas também nos relacionamentos com a família e amigos, desde pequena. Tentei, de diversas formas, escrever este texto sem que parecesse uma crítica a comportamentos, porque críticas baseadas em opinião pura e simplesmente não levam a nada.
Até que comecei a ler o famoso livro de Dale Carnegie, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. A primeira versão desse livro foi lançada em 1936 e até hoje é considerado referência sobre relações humanas. Demorei para iniciar essa leitura. Muitas pessoas me falaram bem desse livro, mas, talvez porque o título soe meio manipulador, fiquei desanimada. No entanto, quando peguei o livro nas mãos e vi que na contracapa estava escrito pelo autor a frase abaixo, eu me empolguei:
“Os princípios deste livro só funcionam quando vêm do coração. Não estou defendendo um conjunto de truques. Estou falando sobre um novo estilo de vida.” (CARNEGIE, D., 2023)
Essa frase traz tudo o que eu defendo. Todas as nossas atitudes têm que vir do coração; têm que refletir quem você é. Caso contrário, vira um monte de truques manipulativos.
Bem, comecei então a ler o livro empolgada e, logo na página 21, o autor traz nove sugestões para tirar o máximo proveito de sua obra. Dentre essas sugestões, ele abordou um tópico que é exatamente o que eu sempre quis dizer e, até hoje, não tinha lido ninguém tocar no assunto:
“Passei quase dois anos escrevendo um livro sobre como falar em público e, mesmo assim, tive que recorrer a ele de tempos em tempos para lembrar o que havia escrito. A rapidez com que esquecemos é impressionante.” (CARNEGIE, D., 2023)
O autor continua explicando a importância de ler e reler, e de sempre manter o hábito de retornar com frequência à fonte de informação. Ele até sugere manter o livro na mesa de trabalho ou em outro lugar de fácil visualização. Neste momento, encontrei no autor um amigo que me compreende. Com base nisso, seguirei com este texto, pois acho importante não confiarmos cegamente na nossa memória.
Sou bastante curiosa sobre como o cérebro funciona. Não está entre as minhas prioridades de leitura, mas é um assunto sobre o qual, de vez em quando, busco informações, principalmente por eu ter afantasia. Esse meu interesse em neurociência já vem de alguns anos, antes mesmo de eu entrar no mundo corporativo. Uma das coisas que me deixava intrigada era a percepção humana. Não entendia muito bem como o que enxergamos é, de fato, uma interpretação de sinais que pode ser distorcida.
Sempre fiquei intrigada com casos como a esquizofrenia. Nossos olhos captam a informação, mas é nosso cérebro que a transforma em visão. Mas como é isso? Eu me questionava: se nem uma imagem mental eu consigo criar, como é ver algo totalmente distorcido da realidade?
Interessantemente, tive a oportunidade de entender um pouco disso na prática. Após uma cirurgia de hérnia umbilical, já acordada e voltando da anestesia, recebi meu almoço. Fui ler a descrição da comida no pote de sobremesa e estava escrito: Paranoia. Reli várias vezes a palavra "paranoia", tentando entender por que ela estava ali. Voltei a atenção para meu marido para comentar o fato e, quando olhei novamente para o pote, estava escrito "mamão" e a descrição das calorias. A palavra "paranoia" foi real por algum tempo. Talvez meu cérebro quisesse me avisar para ter cuidado, pois eu ainda não estava 100% recuperada da anestesia. Naquele momento, entendi o risco da percepção humana e como uma pessoa com esquizofrenia pode viver uma realidade totalmente diferente da comum.
Eu nunca confiei muito em minha memória, especialmente quando se refere a situações profissionais. Quando fiz a entrevista para a vaga na indústria para a qual fui selecionada, perguntaram se eu tinha alguma pergunta. Minha primeira pergunta foi: "Eu terei acesso a livros e artigos científicos?". Infelizmente, boa parte dos bons materiais bibliográficos é paga e nem toda empresa investe nisso como a universidade. Essa era minha maior preocupação: ter que depender da minha memória sem ter suporte bibliográfico.
Nunca confiei muito na minha memória porque ela é pouco específica. Assim, sou guiada por livros e outras fontes. É comum me perguntarem coisas técnicas que só sinto confiança em responder após consultar a bibliografia para ter certeza de que minha resposta está coerente, mesmo sendo um assunto que conheço em profundidade.
Acontece que me deparei inúmeras vezes com pessoas que não têm essa dificuldade e são extremamente confiantes em suas memórias. No entanto, pelo fato de eu buscar a informação fora da minha cabeça, provei diversas vezes que essas memórias podem ser problemáticas, provavelmente pela forma como o cérebro de cada um percebe e grava informações. Essa confiança na memória pode levar a sustentar "verdades" que não condizem com os fatos, gerando erros e desperdícios. Eu já erro mesmo tendo o costume de revisitar bibliografias; imagine se eu confiasse apenas no que lembro ter estudado anos atrás.
Já me estressei muito com isso, pois não entendia por que pessoas afirmam com tanta convicção conceitos errados. Mas imagino que, se eu tivesse facilidade em memorizar coisas específicas ou tivesse memória visual, talvez eu confiasse mais no meu cérebro. Quando a memória parece confiável pela experiência vivida, a pessoa sente que não há por que "perder tempo" buscando novamente a mesma informação. Expertise adquirida pela prática pode ser um problema se o aprendizado não é registrado em um papel ou arquivo no computador no momento em que ele acontece. Expertise apenas dentro da mente de uma pessoa pode ser algo traiçoeiro.
Isso não quer dizer que eu não sustente percepções erradas, porque nossa memória não trabalha apenas para o trabalho técnico. Ela grava percepções pelos cinco sentidos de tudo que acontece na vida que é importante para nós. Logo eu não tenho como fugir de uma lembrança enviesada. Mas normalmente se alguém retruca que estou errada, eu simplesmente aceito que o outro lado pode ter um ponto e estar certo. No entanto, quando se trata de conhecimento técnico como informação registrada, eu não sobrevivo sem o suporte desses registros. Em um embate técnico a síndrome do impostor costuma reinar apenas até o momento que eu revisito os registros e crio os argumentos.
Existe um problema importante a ser superado quando não confiamos na nossa memória: nossas atitudes podem demonstrar que não confiamos na outra pessoa se não tomamos cuidado na forma de agir. Eu aprendi isso a duras penas.
Lutar contra a memória errada de outra pessoa em um debate nunca leva à solução e apenas abala a confiança. A convicção do outro é tão grande que você pode montar uma apresentação técnica impecável e, ainda assim, a pessoa apenas dirá "tudo bem", arquivará o assunto e continuará agindo com base em suas memórias. Já passei por isso. Hoje, adoto a seguinte prática: se o assunto não é problema de vida ou morte eu deixo quieto. Haverá um momento que o conhecimento virá a luz seja de um jeito mais ameno ou mais difícil, e não necessariamente através de mim, e a outra pessoa vai entender.
Toda essa reflexão me veio como uma alternativa para explicar o "ego negativo" na liderança, que eu já presenciei e ouvi muita gente falar sobre. Chamo de ego negativo porque o ego, na psicanálise, é o mediador entre nossos impulsos e a realidade. Um ego equilibrado é necessário. O problema é quando ele se torna excessivo, resultando em autoritarismo e posturas defensivas, por exemplo.
Será que o excesso de ego vem mesmo de uma falha de soft skills? Ou vem de uma confiança extrema em nossas memórias? Será que entender como nosso cérebro funciona e que nossas percepções são enviesadas, falhas e distorcidas por emoções não seria suficiente para controlar o ego negativo de muita gente?
Só sei que ter consciência de que suas convicções podem estar erradas, é algo muito importante para o desfecho de uma boa liderança.
Referências
CARNEGIE, D. Como fazer amigos e influenciar pessoas. Tradução de Livia de Almeida. Rio de Janeiro: Sextante, 2023.
Sugestão de leitura relacionado a este tópico:
KAHNEMAN, D. Rápido e Devagar: Duas formas de pensar Tradução: Cássio Arantes Leite. 1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.



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