O custo invisível da pressa
- nataliajscosta
- 2 de mar.
- 5 min de leitura
Como a percepção do tempo impacta nosso potencial

No mundo corporativo, eliminar desperdícios e melhorar continuamente é sinônimo de evolução dos negócios, minimizar gastos e fornecer produtos melhores. Só que, para mim, isso toca mais profundamente. Eu não cheguei à ideia de melhoria contínua e redução de desperdícios aprendendo sobre Lean, ou Kaizen, ou agilidade, ou qualquer outra filosofia. Eu sinto que isso está embutido em mim desde que eu nasci, e toda vez que eu faço algo que não segue nesse sentido eu me sinto frustrada, como se tivesse falhado em algo. Talvez esteja embutido em você também, mas talvez não seja seu foco de prioridade observar.
Para mim, isso é consciência do tempo, do meu impacto no mundo e do cuidado com gerações futuras. Ou seja, quando eu fiz meu Green Belt e estudei sobre gestão de projetos e melhoria de processos para exercer minha função e dar aulas, eu achei que estava apenas revisitando o óbvio para mim. São conhecimentos que fazem parte de quem eu sou, mas de um aspecto muito mais amplo. Vai muito além do trabalho. E eu percebo que, para muita gente, é assim também. Já ouvi muitas pessoas dizerem que todas essas filosofias e práticas refletem uma pitada de bom senso.
Isso não significa que eu faça tudo sempre organizado, bem pensado, minimizando o máximo de recursos e de forma sustentável. Significa que frequentemente penso nas minhas ações, no tempo, e tento otimizá-los dentro dos meus limites, de forma a aumentar o impacto positivo na minha vida e na dos outros. São pequenos hábitos que, a princípio, não fazem diferença, mas que coletivamente podem mudar o mundo. Embora, é bem verdade, muitas ações nós não temos como prever o impacto no futuro, mas, se estão alinhadas ao objetivo final no qual aquela ação foi baseada, há boas chances de o impacto ser o que você deseja.
E nisso tudo tem um ponto que acho extremamente negligenciado pelo mundo hoje: a consciência do tempo. Porque o mundo vive achando que fazer as coisas mais rápido é uma melhoria contínua e evita desperdício. No meu mundo, o caminho como é feito é que precisa ser otimizado. O tempo que as coisas levam para ser feitas é simplesmente o tempo que precisa ser. E cada um tem um tempo. Acelerar qualquer atividade é simplesmente não fazer o que precisa ser feito, mascarar situações e produzir de forma inútil.
Quando melhoramos processos, os processos ganham velocidade, mas as ações dentro deles continuam precisando levar o tempo que precisam. Dentro dessas atividades também envolve refletir sobre porque o que queremos fazer é importante e para o que contribui.
Aceitar a imperfeição é diferente de fazer as coisas no mínimo de nossas capacidades para fazer mais rápido. Isso, para mim, está longe de ser melhoria contínua e gera mais desperdício do que minimiza.
Quando a competitividade está atrelada ao tempo, ou seja, vence quem entrega mais rápido, tudo se bagunça, porque dificilmente, no mundo corporativo, vão aceitar o tempo que leva para ser feito o que precisa ser feito, e muito menos entender que cada pessoa tem seu tempo. Ajustar o processo todo para melhorar o tempo? Imagina! Está fora de cogitação. É mais fácil pressionar as pessoas. E não se iluda com a fala: “Defina um prazo real para realizar suas tarefas”. Primeiro, porque dificilmente um ser humano tem consciência real do tempo que leva para fazer uma atividade. Sempre temos uma visão otimista demais desses prazos. É preciso reunir dados históricos do mesmo tipo de atividade e um número relevante de casos para fazer uma análise de dados e sugerir prazos mais realistas. Isso é bem discutido no livro Rápido e devagar: duas formas de pensar, de Daniel Kahneman (2012). Segundo, porque, se alguém realmente tem consciência precisa do tempo que vai levar de acordo com suas habilidades, com certeza terá alguém dizendo: “Com esse prazo não dá para trabalhar. Precisa diminuir.”
Eu tive algumas experiências que me mostraram que não adianta forçar o cumprimento de prazos que não lhe permite fazer o precisa ser feito e do jeito que precisa ser feito. Dentro do próprio P&D, prever prazo para mim parece uma tarefa inútil, pela enorme quantidade de situações inesperadas que acontecem. Acho mais eficiente apenas definir o objetivo e dizer: faça isso pelo caminho mais rápido possível e ético, e simplesmente aceitar o tempo que leva para ser feito.
O resultado quando você luta contra a realidade do tempo são incontáveis falhas a mais do que teria em um percurso natural no tempo. Ou seja, reduz a confiabilidade do trabalho que é entregue e omitir falhas pode virar estratégia da gestão. Se torna o tipo de ambiente que mexe com minha saúde mental porque vai contra meus valores. Se você sente como eu e está passando por uma situação assim, seja forte e não sucumba ao caos. Mantenha-se ético. Eu sempre acreditei que, quando você tem responsabilidade consigo mesmo e sustenta valores éticos, as coisas na vida acontecem para sempre te colocar em um ambiente que te faz bem. E foi isso que sempre aconteceu comigo.
Para mim, a gente só evolui quando busca fazer o melhor que pode. Não fazer perfeito, apenas fazer o melhor que pode.
E fazer o melhor que podemos não está relacionado a fazer mais rápido ou em maior quantidade. Está relacionado a usar o máximo nível de nossas habilidades e conhecimentos, respeitando nossa saúde mental e física naquele momento. Quando estamos usando o nosso melhor, já estamos fazendo isso no melhor momento.
Para você que sabe que pode fazer melhor, porque sua habilidade permite, mas não faz por conta do tempo que lhe foi imposto, seja nas tarefas do trabalho, seja nas tarefas de casa, seja nos seus relacionamentos, tenho uma mensagem: fazer o melhor que você pode é valorizar quem você é. Cada coisa que você faz meio atrapalhado e na correria contra o tempo está roubando quem você é. Você não se desenvolve porque não está exercendo suas habilidades no melhor nível que você tem. Se você não está praticando neste nível, como você vai se desenvolver e mudar de nível?
Não se engane achando que dar conta de tudo que lhe é exigido é fazer o melhor que você pode. Na verdade, na maioria dos casos, é apenas fazer tudo o que lhe é exigido, sem explorar seu potencial. E, quando a gente não usa o melhor de nossas habilidades, a gente perde o prazer nas tarefas, na vida. A gente cai no automático.
Esse texto não é para ser uma autocobrança excessiva de desenvolvimento, e muito menos para dizer que você tem que dar conta de tudo o que lhe é exigido fazendo o seu melhor. Ao contrário, é um convite para você exercer seu potencial e descobrir que talvez muitas habilidades que você se cobra desenvolver você já as tenha em um bom nível, só não tem o tempo de exercê-las. E, quando tomamos consciência disso, a gente aprende a organizar nosso tempo de forma mais inteligente, baseado em objetivos mais valiosos, seja no trabalho, seja na vida pessoal. Ou seja, a gente entende que nem tudo o que nos é exigido é de fato necessário.
Para pensar: todas as habilidades socioemocionais também consomem tempo para serem exercidas. Vamos pensar no exemplo da empatia. Eu acredito que, para muitos (não todos), o problema não é a falta da habilidade de empatia, mas sim que estão deixando de exercê-la porque consome tempo. Tempo de escuta e tempo de ação.
Qual sua visão sobre esse tema?
Referência
KAHNEMAN, D. Rápido e Devagar: Duas formas de pensar. Tradução: Cássio Arantes Leite. 1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.



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