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Será a aprendizagem socioemocional a chave para a liderança humanizada genuína?

  • nataliajscosta
  • 16 de set. de 2025
  • 9 min de leitura

Um olhar sobre valores, autenticidade e a base socioemocional da liderança


Imagem gerada pelo ChatGPT
Imagem gerada pelo ChatGPT

Como eu disse no post “Habilidades socioemocionais: aprendizado que nasce nos vínculos”, eu ainda sentia que tinha muito a dizer referente ao assunto de habilidades e competências socioemocionais. E aqui estou eu, escrevendo mais um texto sobre o assunto, e tenho certeza de que não será o último.

Minha forma de compreender o mundo e aprender começa enxergando tudo como um sistema. Um sistema que eu não sei como funciona. Então eu procuro esmiuçar o sistema para entender cada componente e como eles se relacionam. Isso me auxilia a enxergar conexões entre coisas tratadas em mundos diferentes, por exemplo. Assim, eu adoro análises de causa raiz, porque na verdade elas geralmente não trazem uma causa única e permitem ver conexões inesperadas.

Tudo é um sistema. Uma organização é composta de sistemas dentro de sistemas. Se você começa a esmiuçar, percebe um monte de pontos que não fazia ideia que existiam e aí descobre que não tem conhecimento para entendê-los. Começa então uma jornada de aprendizado nova e inesperada. Muitas vezes você pode entrar em um caminho sem fim e acaba tendo que decidir o momento de parar de aprender, porque já chegou em um ponto que está bom para você.

Quando eu comecei a estudar sobre liderança foi bem assim. O tema de liderança é um sistema complexo que, na hora em que você começa a esmiuçar, descobre que para entender precisa estudar vários tópicos diferentes, e algumas vezes não triviais. Neste processo de estudo sobre liderança humanizada eu me deparo frequentemente com duas observações que me incomodam:


Primeira observação: Em muito conteúdo a liderança humanizada é trazida excessivamente e exclusivamente como uma forma de inspirar para gerar produtividade e resultado.

Muitas pessoas focam na liderança humanizada com o objetivo final de desenvolver times de alta performance. Afinal, é o que as empresas precisam. Se a gente não conversa trazendo um benefício relacionado a ganhar lucro e aumentar produtividade para as empresas, esse assunto não vai interessar.

Não julgo quem trabalha desenvolvendo líderes humanizados focando em produtividade. Muitas dessas pessoas no fundo acreditam e lutam pelo bem-estar humano. Focar em produtividade é um jeito que as pessoas encontram de ser ouvidas. Eu mesma já abordei o tema por esse lado. Contudo, eu enxergo a liderança humanizada como um dos meus valores. O meu pensamento não está em ter uma equipe de alta performance. Meu pensamento está em valorizar a ética, os relacionamentos humanos e o bem-estar social. Meu pensamento estratégico e de tomada de decisão sempre vai considerar com peso o lado humano e ético.

A alta produtividade da equipe é apenas um resultado da liderança humanizada e não o objetivo. Cumprir metas e gerar trabalho de impacto acontece de forma natural porque as pessoas que trabalham sob uma liderança humanizada se tornam conscientes de seu valor, se enxergam como parte responsável da empresa e entendem a importância de relacionamentos sociais saudáveis. Quero deixar bem claro que relacionamento saudável não é sinônimo de evitar conflito.


Segunda observação: a falta de profundidade quando se fala de desenvolvimento de competências socioemocionais.

Alguns livros ainda trazem no texto a importância de buscarmos genuinamente modificar nossos comportamentos para sermos líderes mais humanizados. Alguns incentivam encontrar o caminho pela espiritualidade e autoconhecimento, enfatizando a importância de aprofundar e compreender as emoções. Muitos outros livros trazem dicas de como se comunicar melhor, explicam a importância da escuta ativa e da empatia. Alguns falam o que devemos fazer: “Preste atenção enquanto a outra pessoa fala”, “Incline seu corpo para demonstrar interesse”, “Se coloque no lugar do outro” e por aí vai. Mas o que motiva as pessoas a fazerem isso? Quem tem essas habilidades naturais, desenvolvidas na vida, o que de fato leva essas pessoas a serem empáticas e escutarem ativamente?

Eu posso afirmar para vocês que não é um treinamento por repetição passo a passo, decorando como devo me comportar e o que devo falar. Também não é se jogar em uma experiência nova e diferente para ver o que acontece no dia seguinte. Parece fácil falar para fazer um trabalho voluntário para desenvolver empatia. Quantas pessoas não fizeram isso e ainda sentem um longo caminho para percorrer? Existe uma chama interna que torna essas competências genuínas, porque se torna parte de quem você é. Se não entendemos a chama de cada competência socioemocional, estamos apenas fazendo o que precisa ser feito e não sendo nós mesmos. Quando o assunto não é tratado com profundidade, o resultado é a manipulação.

Depois do meu post “O papel invisível, mas essencial, da liderança informal”, eu fiquei um tempo pensativa. Quantos líderes humanizados eu conheci que não tinham funções de liderança, nem mesmo de liderança informal. Muitas vezes porque não queriam mesmo, outras porque faltava a parte técnica. Pessoas que transformavam positivamente outras pessoas, dando ânimo para o trabalho, estimulando a união do time, mas que muitas vezes eram invisíveis para a organização. Em muitos lugares, a liderança é definida por competência técnica, deixando a comportamental para ser desenvolvida depois. Eu sinceramente não entendo por que muitas organizações não valorizam essas pessoas que não têm cargo de liderança, mas têm competências socioemocionais desenvolvidas, e não as colocam para mentorar líderes técnicos juntamente com o treinamento formal. Será um viés por serem de um nível hierárquico inferior, ou porque realmente a empresa não tem mecanismos de identificá-los ?

Pois é, gente, a maior parte do que aprendi na vida em relação às minhas soft skills (que ainda têm muitos pontos de melhoria) não veio de outros líderes formais. Meus maiores aprendizados vieram de pessoas sem cargo de liderança e muitas delas não tinham formação acadêmica. São pessoas de fortes valores éticos e consciência social, com vivência em diversas bolhas sociais e que dedicavam tempo aos seus relacionamentos interpessoais. Dedicavam tempo a ouvir, ajudar e refletir sobre si mesmas e as histórias dos outros. Pessoas que mexeram com meus sentimentos em nossas conversas e trocas de experiências. Pessoas que acenderam diversas chamas, me fizeram refletir e enxergar por outra perspectiva.

Geralmente o que vemos são gestores e CEOs mentorando novos líderes. Isso de fato é importante, principalmente quando se trata de desenvolver competências técnicas e estratégicas. Mas e as competências socioemocionais? Realmente é preciso um gestor para mentorar?

Competências socioemocionais não são atreladas a cargo ou status. Elas dependem mais das experiências e da personalidade de cada um. Não seria interessante aprender com quem é naturalmente empático e vive isso no trabalho e na vida como um todo? Ter um pouco de humildade e escutar pessoas com maior experiência em vivência social e capacidade de autorreflexão, que muitas vezes não estão em altas posições profissionais?

Essa parte de desenvolvimento comportamental do líder tem muito espaço para manipulação e falta de autenticidade se não for tratada com cuidado. Por isso muita gente também sofre mentalmente quando assume um cargo de liderança. Começa a enfrentar não só uma pressão maior por resultado, mas também uma pressão para alterar seus padrões na forma de ser.

Voltando para a visão da liderança como um sistema, uma das causas raiz para a liderança humanizada genuína está nessa base das habilidades socioemocionais, e eu tenho tido muito interesse neste tópico, como vocês perceberam. Esmiuçando o sistema, percebi o quanto é importante trazer a intencionalidade do desenvolvimento de competências socioemocionais para a vida adulta, e que essas competências não são desenvolvidas de forma genuína pensando exclusivamente no trabalho. Elas fazem parte da formação de nós como seres humanos em sua totalidade. Se você se preocupa em ser um líder humanizado no trabalho e se comporta para esse papel, mas não consegue gerir conflitos e ser empático com a família e as pessoas que o rodeiam fora do trabalho, você não desenvolveu suas competências de forma genuína.

Recentemente eu tive uma surpresa muito agradável na minha vida, e mais uma vez o universo mostrando que ele conspira a favor. Eu tive a oportunidade de assistir a uma palestra do Dr. Celso Lopes de Sousa, CEO da empresa Semente Educação, sobre competências socioemocionais na infância e adolescência. Eu fiquei encantada com as informações que ele trouxe, alinhadas exatamente às minhas descobertas reflexivas. Ao final da palestra eu fui conversar com ele e explicar meus pensamentos e práticas pedagógicas no contexto universitário. Pedi que ele me desse alguma dica e o que ele fez por mim eu jamais irei esquecer. Ele me deu acesso aos cursos de formação de professor da Plataforma Semente Educação. Me debrucei nos cursos. Um material excelente, com profundidade científica e excelentes profissionais apresentando o conteúdo.

O conteúdo abordava o desenvolvimento das competências socioemocionais baseado nas cinco famílias de competências: autogestão, abertura ao novo, modulação emocional, engajamento com os outros e amabilidade. Essa abordagem é a mesma utilizada pelo Instituto Ayrton Senna e difere um pouco da abordagem CASEL (Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning), pois foi adaptada ao contexto educacional brasileiro pelo desenvolvimento de taxonomia própria, instrumentos de avaliação e conexão direta com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Esse aprofundamento de conhecimento e entendimento em relação às 17 competências core (saiba mais em Semente Educação) me fez sentir que estou chegando cada vez mais perto de entender quais são as chamas do desenvolvimento natural dessas habilidades, permitindo que cada indivíduo seja consciente do valor positivo que pode trazer para o mundo.

Nossos padrões de comportamento refletem nossa forma de pensar, sentir e agir, e a partir do momento em que os compreendemos, percebemos nosso poder de escolha no que somos. Uma vez que tomamos consciência dos benefícios individuais e coletivos que a aprendizagem socioemocional pode trazer para nossa formação humana como um todo, entendemos a importância de buscar desenvolver as competências socioemocionais de forma genuína e aceitando nossas limitações.

A aprendizagem socioemocional não tem nada a ver com padronização de comportamentos e nem é uma forma das pessoas trazerem para si responsabilidades que seriam de causas estruturais. Quem compreende a aprendizagem socioemocional a vê como uma ferramenta importante para aprendermos a nos posicionar no mundo, mantendo o respeito, a ética, sendo capazes de refletir e contribuir para a sociedade gerando valor real.


Por que hoje observamos uma demanda crescente por competências socioemocionais?


Na educação, o papel do educador é ajudar a formar um cidadão além de um profissional técnico, trazendo conhecimento e intencionalidade nas competências socioemocionais para que os alunos se desenvolvam e sejam preparados para a vida de uma forma mais saudável, aprendendo a modular melhor as emoções e valorizando cada indivíduo como ele é, além de contribuir para uma sociedade mais colaborativa e com tomada de decisões éticas e responsáveis. Se a educação deve se importar com o desenvolvimento socioemocional dos estudantes de uma forma ampla para a vida, por que o mercado de trabalho parece desesperado por falta de profissionais com soft skills desenvolvidas? Vou elencar aqui os principais motivos que vejo com base no conhecimento que tenho adquirido até esse momento da minha vida:


  • Infelizmente nem toda escola ou universidade trabalha realmente trazendo o conhecimento socioemocional para a prática. Muita gente ainda acredita que pedir um trabalho em grupo já é o suficiente para ajudar os alunos a desenvolverem as competências, e isso não é verdade. Os alunos precisam entender os conceitos e a importância dessas competências e serem orientados de forma que possam identificar na atividade como essas competências estão sendo desenvolvidas. O aluno precisa ser estimulado a refletir sobre elas e então seguir com as escolhas que fizer. Eles devem ser capazes de identificar suas forças e fraquezas. Se isso não acontece, se torna uma prática sem conhecimento. E para um professor ter um olhar socioemocional ele precisa também se preocupar em desenvolver suas competências e compreendê-las. Se muitos professores ainda não estão de fato preparados, como esperar então que consigam auxiliar no desenvolvimento dessas habilidades de forma equitativa e igualitária?

  • Tem se observado que perdemos muitas dessas habilidades como humanidade no contexto geral no mundo todo. Parte disso vem principalmente do acesso de crianças e adolescentes à tecnologia, especialmente às redes sociais. Sugiro a leitura do livro Geração Ansiosa de Jonathan Haidt (2024). A tecnologia trouxe sim benefícios, mas esses benefícios não ofuscam os problemas que ela também trouxe. O aumento de jovens com problemas de saúde mental e a incapacidade deles lidarem com problemas inerentes da vida é um assunto sério, urgente e diretamente relacionado com a falta de desenvolvimento das competências socioemocionais. Precisamos ter na educação maior incentivo ao uso ético e consciente da tecnologia, valorizando a importância das convivências presenciais. Na vida adulta, os algoritmos trazem informações e notícias que alimentam pontos de vista em vez de nos fazer questionar nossas verdades. As pessoas ficam mais polarizadas e com maior agressividade em suas opiniões, sem permitir espaço para dúvidas. A empatia só vai despencando.

  • A realidade nua e crua do mundo em que vivemos também é um problema. O modelo econômico ao qual o mundo está inserido vive uma pressão por competitividade excessiva e isso afeta os relacionamentos humanos e valores, pois o individualismo é muito estimulado. Quando falamos de competências socioemocionais, falamos do equilíbrio e da complementariedade do indivíduo com a sociedade. A colaboração é uma das resultantes mais importantes do desenvolvimento socioemocional. No entanto, o mundo como ele é ensina o contrário. É como se agora observássemos que muitas empresas estão enfrentando um problema que elas mesmas podem ter contribuído para criar. Julgam as pessoas que não sabem trabalhar em equipe, mas a postura da empresa fomenta a competitividade, pois para elas equipes colaborativas e que trabalhem felizes ajudam a aumentar a sua competitividade frente ao mercado. Percebem como há incoerências que dificultam a aprendizagem socioemocional no próprio meio corporativo? Nós, seres humanos, sentimos essas incoerências, mesmo que de forma intuitiva.


Ainda há muito para eu descobrir, de forma mais profunda, neste terreno das competências socioemocionais, e acredito sim, pela minha percepção, que a aprendizagem socioemocional tem potencial de ser a peça-chave para o desenvolvimento de lideranças humanizadas genuínas. O meu monstro da pergunta (ver post “Fazer o que precisa ser feito: aceitar o erro como parte do caminho”) ainda tem alguns pontos de interrogação não respondidos quanto à melhor forma de trazer essa aprendizagem para os adultos. Nas crianças a gente já sabe: desconectar das telas e retornar às brincadeiras ao ar livre com os amigos.


Reflexões


Uma realidade que poucos dizem é que uma liderança humanizada genuína pode resultar em uma ressignificação de valor no mundo do trabalho. Será que as empresas estão preparadas para isso?

Como você entende o desenvolvimento socioemocional dentro do contexto da sua vida?


Referência

 

HAIDT, J. A geração ansiosa: Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. Tradução: Lígia Azevedo. 1ª Edição. São Paulo: Companhia das letras, 2024.

 
 
 

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